Mercado do prazer

Era o terceiro trabalho da noite. Ela acendeu um cigarro enquanto olhava pela janela, observando os carros, as pessoas, a vida em movimento. E ela ali: parada, estagnada, com a alma mais perdida do que nunca, com o corpo destroçado e elástico, com nojo da própria carne. Ela era a mais pura ambiguidade na cama e no dia a dia. Tão doce e amarga, lunática e excêntrica… única.

Mas não, não enxergava mais uma qualidade sequer, já não se conhecia, afirmando a quem questionava, que a vida havia lhe corrompido. E assim terminou o cigarro, olhou em volta à procura duma garrafa de whisky que pudesse mascarar os trinta minutos seguintes de tesão, gemidos e orgasmo forçado. Sem sucesso: acabara a única restante com o segundo cliente. Pôs na cabeça que aquela seria sua última semana no mercado do sexo e que se não conseguisse outra forma de sustento, morreria de fome. Retocou o batom e foi ao encontro do próximo cliente: ela era uma atriz.

Chegou ao hotel barato do outro lado da rua, subiu as escadas e encontrou a porta entreaberta, com um velho ensaiando sua performance sexual. Mal conseguira digerir a informação e o coroa puxou-a para dentro do quarto gritando:

– Vem gostosa! Vou acabar com você.

Estava enojada, buscando forças dentro de si para não dar fim a sua existência, já o velho, que beirava os 70 anos, totalmente elétrico, puxou-a e começou a beijá-la, babá-la.

Enquanto ele se divertia, ela avistou uma Glock 17 no criado mudo. Um só tiro daquela pistola acabaria com sua agonia. Mas primeiro ela tinha que satisfazer o coroa, que havia grudado em seu corpo de maneira tão grotesca, mas ao mesmo tempo tão prazerosa e invejável a qualquer outro homem.

Aquelas pernas, aquela cintura…Seu corpo era uma delícia, e o velho havia compreendido tamanho privilégio. Ela, no entanto, deu todo o prazer possível, saciara a fome do velho e grotesco lobo, enquanto ninguém saciava a de sua alma.

Mais um programa havia acabado, mais um verme desfrutara de seu corpo, da sua alma, a custo de cinquenta pilas. Ela se limpou como pôde, vestiu-se e saiu para a rua. Era mais uma noite de verão na Lapa, mais uma noite para vagar com o receio de ser abusada, abusada a custo de nada.

Mais uma noite. Agora sem o velho, sem a Glock, sem a bala, sem o whisky, mas com o suor de três corpos diferentes no seu, mais uma noite em que apenas deu prazer.

Mais uma noite pra cidade, a última dela. Três passos à frente, em busca de abrigo, foram interrompidos quando um homem alto e forte empurrou-a contra a parede.

Foram três, quatro, cinco gritos! Mas não apareceu ninguém para impedir!

– É só mais uma puta! – comentou alguém na vizinhança.

Foram sete minutos de agonia, agonia esta que distinguia-se do significado dado por ela há alguns minutos. Sete minutos e a mulher, aquela mulher cuja alma inflava em desespero, virou mais um dígito nas estatísticas sem precisar duma Glock, do whisky… Ali começara a sua agonia. Sete minutos e ela estava fora da vida.

 

 

Anúncios

2 comentários Adicione o seu

  1. Isa Manzini disse:

    Que texto foda, sem mais.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s