Da falta de tato

Eu passava por você todos os dias, olhava-o, chamava-o, desejava-o… Mas você jamais percebeu. Você não entendeu meus sinais, não tinha ideia do seu potencial e do tamanho da minha vontade de te conhecer mais, de aprofundar no assunto mais interessante: você, seus costumes, suas qualidades e defeitos, sua essência, o seu ser por si só.

Mas não te culpo, meu bem. Tu se deparastes com uma pessoa reclusa, uma pessoa morta dentro de si, de alma apodrecida e dual. Uma alma confusa, machucada, desamparada, contraditória e velha. Sim, uma alma velha. Dessas que a gente analisa e não sabe se julga-a legal ou totalmente fora de contexto.

Você chegou quando a festa já tinha rolado: aquele cara babaca já tinha se declarado, conquistado, quase – amém – estuprado e sumido. O segundo galã da celebração foi mais cauteloso, já que perdurou o sofrimento por mais tempo, esgotou esse corpo que inflamava em esperança e se foi, depois de pisoteá-lo.

Chegou, afinal, quando todos apenas pegavam o bonde da convivência por cerca de dois ou três quarteirões, subiam para o quarto, flertavam, sentiam alguma droga de prazer por dois minutos e depois, assim como o primeiro ou o segundo babaca, sumiam. Sumiam, assim como a esperança que um dia inflamou esse corpo.

Mas você teve a chegada triunfal. Você não me tocou, não me beijou, a gente sequer saiu. Mas você arrebatou alguma coisa que estava guardada lá no fundo do peito, fez ressuscitar 1% de esperança que eu já tinha dado por morta e enterrada. Você despertou interesse justamente por ser tão… você.

Decerto eu deveria ter te chamado pra sair, te perguntado se estava literalmente livre e se poderíamos nos conhecer melhor. Mas até esse fator foi afetado pelos babacas que percorreram cada centímetro desse corpo e cuspiram n’alma.

E o resultado da minha tolice? Da minha covardia? Te perdi. Perdi-o como tantas coisas na vida: a família, pelo contraste e a falta de compreensão; o emprego, pela falta de atenção; o júbilo, pelo contágio diante do desrespeito alheio; a vida, pela vergonha de expressar meus sentimentos, pela falta de tato.

E cá estou, meu bem. Embebedando-me diante da tua ausência, da solidão, que impregnou em cada metro quadrado, em canta parte do meu corpo, em cada dia… Numa vida por inteiro.

 

 

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