Do cansaço da nossa hipocrisia

Eu ia ao mercado toda semana e comprava duas ou três garrafas de vinho naquela época. Era um inverno habitual em São Paulo, quando a gente se reencontrou e eu o convidei para fazer uma visita à minha nova casa. Ele não foi, mas revê-lo me despertou lembranças da fase mais árdua da minha vida. Passou um filme em minha cabeça com as transições pelas quais passei na época da faculdade.

A gente tinha se formado há dois anos e ninguém sabia o paradeiro daqueles “grandes amigos” universitários. E não era pra menos, afinal todos nós tolerávamos a presença um do outro por uma causa maior: as notas que nos poupariam de DPs nas matérias absurdas que compunham a grade curricular.

E não, isso não é exagero. O problema da faculdade não é ela em si, os professores, os alunos ou os assuntos malucos que abordamos, mas a hipocrisia geral.

Eu passei quinze anos da minha vida acreditando na inocência humana. É patético, mas eu achava que as pessoas não conseguiam realizar algo maior por falta de acesso. Mas daí essa ideologia juvenil foi estuprada pela realidade: o ser humano é estúpido por natureza, alguns mais que outros, mas o que nos diferencia é a ação diante da nossa imbecilidade natural. Se você a abraça e se conforma ou se você mexe sua bunda e tenta ser menos idiota.

Acontece que na universidade, sobretudo nos cursos de comunicação, você encontra pessoas que se julgam super-heroínas, mutantes do bem. Mas não, não estamos nem perto de sermos seres “legaizinhos”, quem dirá adoráveis neste nível.

As pessoas fazem umas das outras de degraus para o próprio sucesso – pessoal, acadêmico, profissional, sexual, existencial etc. Ninguém se importa com ninguém verdadeiramente. Você e eu só abraçamos alguma causa por vaidade, pra não ter uma existência resumida em procrastinação. E raramente, quando a gente de fato sente alguma coisa e tenta interagir e ajudar quem nos cerca, a gente é visto como um retardado, um alienígena encarnado.

E experimenta insistir na ideia de abraçar a causa, que daí sim, você vai receber o diploma de trouxa do ano.

Isso não é um manifesto do contra ou do pessimismo universal. É a realidade sem maquiagem, sem vinho, cerveja, cachaça ou qualquer outra coisa que possa ser usada para amenizar as dores da existência nessa terra de loucos.
Eu comprei brigas por gente que não merecia sequer uma cusparada na cara, comprei o amor falso alheio, a preguiça embutida. E para quê? Para deixar de ser trouxa. Sim, porque não basta ser trouxa, o ser humano tem que teimar em permanecer com esse papel ridículo.

Quando eu tinha uns cinco ou seis anos eu costumava visitar tios e tias com meus pais – alguns contra a minha vontade, mas ok – e nessas visitas corriqueiras alguns dos melhores parentes que eu poderia ter se doavam ao máximo à minha família. Ao invés de dar longos sermões sobre a importância da vida, da compaixão, de dividir o pão e etc, a gente apenas fazia o que acreditava. De todas as lembranças que me vieram à tona desse enorme conglomerado de fases e aprendizados, essa é a mais saudosa.

A gente já era muito imbecil numa era pré-Internet. Havia a comadre que ia à casa da outra para fofocar sobre a vizinha que recebia homens em horários julgados impróprios, mas que mais tarde, quando a amiga ia à missa, arriava a saia para seu compadre e depois enchia o papo no dia seguinte, mais uma vez, para praticar o juízo final na vizinhança.

Havia o pai que se achava o salvador da parada só por cumprir a obrigação de sustentar os filhos que fez. A mulher que apanhava do marido e que acreditava que tinha que se fortalecer em meio à pancadaria, afinal, um divórcio a deixaria mal falada por ser mãe solteira, ou mesmo uma “fraca”.

Por fim, já havia muitas coisas inúteis com o que se ocupar e algumas – para nossa alegria! – têm sido transformadas e/ou debatidas por movimentos sociais.

Entretanto, nessa era da pós-verdade, das redes sociais, da globalização 2.0, a hipocrisia humana que antes apenas respingava sobre a vida, agora transborda e nadar contra essa correnteza é mais difícil que qualquer coisa.

Citei a fase universitária como o ápice dessa trama, porque nela eu via constantemente os corpos vazios inflados pelo ego, não pela livre e espontânea vontade de fazer alguma coisa. Pior que ser escravo do sistema, como prega a ideologia juvenil de que falei – assim classifico, pois dá a ideia de que SÓ o sistema é o causador da barbárie universal, sendo que quem move essa locomotiva desgovernada somos nós –, é ser escravo das aparências.

Existe movimentos sociais e campanhas para tudo, exceto para a ação e vergonha na cara. Todo ano, no inverno, por exemplo, há campanha do agasalho e matérias que abordam o número de moradores em situação de rua em São Paulo, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro… Em todos os cantos do meu País e de qualquer outro.

Todo ano vejo pessoas fazendo textões para dizer que doaram x agasalhos a y moradores(as). Textões para reclamar da falta de respeito de terceiros, do governo, do desemprego, do(a) parceiro(a), da falta de facilidade aqui ou ali, disso ou daquilo, de si. Textões para reclamar das reclamações, feito esse aqui.

Porém, esse cosplay de manifesto da revolta não pode nunca ser a ação, a vergonha na cara de que falei. Não adianta falar baboseiras sobre o vizinho que liga o som alto e fazer a mesma coisa, ligando o “foda-se” pra todo mundo e julgando-se dono(a) da razão. Não adianta falar que o sistema é uma bosta – a gente já tá cansado de saber que a nossa política é uma piada sem escrúpulos – e esperar uma “mãozinha” pro seu sonho vir do céu. Não adianta falar que é feminista e só trocar informações sobre a causa numa palestra gourmet, com gente gourmet, lá pelas vias centrais da cidade, enquanto a vizinha é aliciada pelo marido a fazer coisas contra sua vontade. Não se abraça uma causa pela metade.

Não adianta falar, falar e só falar. A vida não é o Trovadorismo para se dar apenas na oralidade – e interprete oralidade como achar melhor. A vida é o que se dá no contato, no zelo, na humanidade. Mas a gente é um tanto sádico e percorre todo esse caminho desgastante e desumano de insistir em coisas supérfluas e desvalorizar as que de fato importam. A troco de quê? De um diploma, para se considerar mais e melhor que alguém; de um título num pedaço de papel ou uma placa numa sala comercial com nosso nome e cargo – e às vezes uma cadeira de rodinhas de bônus.

A gente embaralha toda a nossa vida e torna-se uma carcaça vazia ambulante quando a gente abre mão de resolver os conflitos internos, primeiramente, e consequentemente de ser mais honestos conosco, com o próximo, com o nosso meio em geral. E isso é passado de pai para filho, levado da infância pra escola/faculdade e, por fim, reproduzido em vários atos na peça intitulada “Vida adulta”.

Anúncios

1 comentário Adicione o seu

  1. Agnaldo Ribeiro disse:

    Belo texto . Gosto de quem não gosta. Gosto da firmeza de caráter e integridade que só o pensar pode promover.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s