Quando o vinho bastou

christopher-john-pratt-227355Christopher John Pratt

A gente se via quase todos os dias. Ele namorava, era infeliz com a fulana e ansiava por um voo de liberdade. E eu, solteira, na flor da idade, já o cobiçava há tempos.

E não, essa história não cabe em suas análises medíocres. A vida não é para ser entendida, avaliada. É para ser vivida, apenas.

Ele era lindo. Embora cresse veemente o contrário, ele tinha uma alma sagaz, curiosa, viva… Ele fazia o melhor e o pior ser que residia em meu interior vir à tona. Ele fez a mulher acuada em mágoas renascer.

Foi como aprender a andar de bicicleta, ver o Tricolor paulista ser campeão novamente, talvez como ganhar na loteria… Foi como finalmente me sentir viva. Não era mais apenas um corpo ambulante em meio a uma multidão insana em plena São Paulo do século XXI.

Com ele eu extravasei, expus o corpo, as curvas, as cicatrizes, os medos… Expus a alma por inteiro. E não sei se ele fez o mesmo, digamos, completamente. Mas sim, ele me apresentou seus segredos, seu corpo maravilhoso, as marcas… Cedeu-me o encontro com o garoto com sede de saber que retraía diante das demais pessoas.

E quando ele me visitava a casa que vivia vazia era tomada por um ar boêmio. Aquele ar que eu já bancava todos os dias por conta da minha rotina descomunal. Mas só com ele a coisa toda se concretizava.

Eu lançava o jazz, o blues, o soul e aquele bom gospel americano e ele encaixava nas batidas, no clima, no meu corpo. Ele colava em mim e eu só queria tê-lo até os corpos despedaçarem.

Mas meu surto me fazia segurar 20% da carga de adrenalina que me tomava e eu recuava. Eu de fato não sei, mas eu só queria viver aquilo enquanto respirasse, e quando ele dizia que estava satisfeito, que também me desejava, eu ia ao céu e ao inferno em questão de segundos.

Ao céu, pela sensação de realização pessoal, sexual, existencial possível. Ao inferno eu ia porque tantos desgraçados passaram por essa rotina, trilharam as curvas do meu corpo e pisotearam toda a minha boa vontade.

Nele eu enxergava a liberdade e a compreensão que eu tanto procurara um dia, mas sabia que com quase toda certeza eu não era o perfil que ele queria, por mais que tivéssemos tanto em comum.

Não existia mais aquela coisa de “eu sou ar e você é terra”, opostos completos ou qualquer outra baboseira. Os perfis batiam, a gente pensava e agia igual. O desejo aumentava, a libido batia no céu e rachara a atmosfera.

Mas era tarde para eu tentar qualquer andamento da felicidade. Ele estava emaranhado na pior prisão possível: o relacionamento forçado.

Eu não tinha mais o que fazer. Os encontros foram cessando, sua saúde e a minha piorando a cada dia… Restava, ao menos da minha parte, a saudade.

E pra tentar te esquecer afundei-me diariamente no álcool, no cigarro e na escrita.

A voz que antes destinara-se a trabalhos variados, agora quase não saía. A pele, antes lisa e sedosa devido ao sexo constante e a felicidade por si só, agora estava com pequenas rachaduras, num declínio antes dos 30. E o que despertara minha alma ficara aprisionado, nessa carcaça então inválida.

Enquanto isso, ele seguia preso. Talvez na mesma infelicidade, conforme me atualizava de vez em quando. Mas seguia em sua prisão. Quanto a mim, o vinho bastava… Teve de bastar.

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1 comentário Adicione o seu

  1. A disse:

    Você não sabe o que sua vida te reserva se depender de mim. Infelizmente não posso agora talvez pelo mesmo motivo do seu devaneio. Mas um dia, quem sabe, te levo pra dar risada comigo em algum beco estranho da Guarapiranga.
    Atenciosamente, A.
    (Mesma pessoa que te mandou o recado no Saraha)

    Curtido por 1 pessoa

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