O clímax

Beto chegou sorrateiro naquela sexta-feira. Ele havia trabalhado o dia todo e deveria estar na casa da noiva naquele exato momento. Mas ele já não aguentava mais ter de suportar a farsa, o teatro do relacionamento perfeito. Ele nunca a amara.

Por fim, ele chegou a minha residência por volta das 23:30. Eu prometi que faria um bom jantar e de fato o fiz, mas o rango só saiu por volta das 2:00 do sábado.

Mas ele não reclamou. Ficou de canto observando a sequência de ações, o local. Preparava-se para cercar-me em seus braços.

A bola fora

Mas como eu ainda não tinha certeza quanto as suas intenções, encarei a noite como um encontro entre velhos amigos. E era estranho.

Desde que o conhecera eu sentia um desejo que julgava inconveniente. Mas se antes, livre e desimpedido, eu não tentara nada e nunca tinha notado interesse de sua parte, já não era tempo de arriscar.

A deixa

Eis que já conformada com meu vacilo, ele passa a mão pela minha cintura e sussurra ao pé do meu ouvido:

– Vamos para o quarto? Que tal assistirmos um filme?

E fomos.

Do tudo, tivemos o nada

Pus o filme para rodar, assistimos e nada aconteceu. Beto até jogou um verde, mas mal ele sabia que lidava com uma pessoa que deixa tudo às claras, literalmente, se não o duelo não inicia.

Não peguei a referência de suas indiretas e a noite terminou em 0 a 0.

A prorrogação

Após os 90 minutos daquela partida, sem gols, sem lances triunfantes de ambos os lados, o desempate finalmente rolou fora do gramado.

Beto deixou minha casa por volta das 5:00, relutante. Deu-me um abraço apertado, um beijo na testa e agradeceu por tudo. Daí pensei: “que tudo? Não houve nada, meu bem…”. Mas em seguida entendi.

Ele procurava uma alma correspondente, que não o prendesse, que só se sentasse ao seu lado e ouvisse as tramas, as aventuras. Uma alma para acompanhar, não para impor, como fazia a tal fulana.

A final, afinal

Beto foi embora no sábado de manhã, mas voltou mais tarde. Antes de revê-lo, durante aquele desenrolar básico para encerrar o contato ao menos por alguns meses, eu disse a ele que poderia – e deveria – voltar quando julgasse possível.

E ele então preparou para a cobrança decisiva:

– Não sei se devo, mas quero…
– Qual é o problema?
– Se eu for aí e ficar sozinho contigo novamente eu posso acabar estragando tudo.
– Como assim?
– Ontem eu só queria te beijar, mas quando dei uma pista você contornou. Entendi que só queria conversar e respeitei. Porém, foi difícil.
– Eu também queria…

E a gente se explicou. Finalmente entendi o andamento daquele relacionamento estranho e, por fim, combinamos de tomar outras garrafas de vinho naquela noite.

O lance

Ele chegou e fomos direto para o quarto com duas garrafas de Santa Carolina meio seco. Lá, a gente conversou por um bom tempo até preparar o terreno para o grande lance.

Foi aí que iniciou a partida, chutou e acertou. Os corpos então se encaixaram sob a luz do abajur e ao som de um soul antigo.

Ele me beijou por inteira e a transa fluiu, num vai e vem sintonizado dentro da existência descompassada. Eu perdi o controle do meu corpo.

O clímax

Foram três horas de atrito entre os corpos, de dança entre as almas. Três horas inteiras das quais não sei estipular o ápice mais intenso.

Todas as experiências que vivi se desfaziam, despedaçavam diante do que aquele homem me proporcionava naquele instante.

O corpo transcendia aquelas outras 10 versões do eu que a teoria das cordas prega. O tremor tomara forma dentro da minha carcaça.

O pós-jogo

E após as três horas mais intensas da minha vida, eu não queria disputar mais nada com outro oponente. Não havia outro jogo possível sem ele em campo.

E de fato não teve. Aquele garoto da várzea foi o primeiro, tão aguerrido, a ponto de matar no peito os 90 minutos e deixar qualquer outro que tentasse substituí-lo no chinelo. Mas não seria diferente… Beto tinha a raça e a malandragem da base. Fora o clímax da minha vida.

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