E então você cai

Louis Blythelouis-blythe-199655De repente a ficha cai. Você sente a garganta fechar, a respiração trepidar, o refluxo. E você não anda, mas se arrasta enquanto tenta reverter o bug que tomou seu corpo. São espasmos de dor, de culpa. Culpa imposta.

Você anda assustada feito alguém que acabou de cometer um assalto. Você não consegue mais pegar um ônibus, trem ou metrô sem fazer alguma oração mental por segurança, sequer consegue imaginar a possibilidade de ter de ficar ali, num ambiente fechado com muitas pessoas, sobretudo homens, e pegar um congestionamento. Você não consegue mais se relacionar.

E também não consegue mais ser você mesma, seja na vestimenta ou na empatia. Você quer se esconder do mundo, ficar num canto bem escuro totalmente isolada. E chora.

Você vai chorar em público contra a sua vontade, completamente humilhada, por se deparar com outras situações grotescas como a que passou ou simplesmente por ter uma crise de pânico, de medo. Você vai chorar no trabalho, na escola ou na faculdade, na igreja, na rua, no transporte público. Você vai chorar e ninguém vai te entender.

E sabe os espasmos? Eles não vão te abandonar. Se antes você sentia dores no corpo pelo cansaço das horas trabalhadas, agora o seu tronco simulará uma trinca. Você já não é mais bonita visualmente perambulando por aí por dois motivos-chave: segurança e consequência.

Seus ombros agora vivem contraídos, você veste blusas compridas, como se fosse uma medida eficiente para impedir que algum imbecil passe a mão ou ejacule em você. Você não sabe mais o que fazer. Se é que existe algo que possa ser feito.

O fato

Quando aconteceu você não fez nada. Não fez porque não tinha como fazer. Ele tentou enfiar a mão em você, você não o conhecia e nunca daria essa deixa a alguém. Mesmo assim, ele fez, passou por cima da sua privacidade, da sua moral e dignidade. E você tremeu, chorou e quase caiu aterrorizada, mas ao invés de ajuda, você recebeu olhares estranhos como se tivesse que julgar aquilo como normal ou mesmo se culpar. Você ficou exposta.

E você atribuiu culpa por algo que está fora do seu controle quando correu para a família e teve de ouvir questionamentos quanto ao seu traje, a forma como anda e se comporta. Você teve de ouvir que “é melhor parar de tentar alcançar todos os seus objetivos e ‘quietar’ o facho em casa”, porque “o mundo não é seguro e mulher tem que entender que no Brasil é assim, não há justiça”.

Mas eu não quero, não posso e não devo ‘quietar o facho’ se isso significar abrir mão do meu direito de ir e vir, de me locomover para estudar, trabalhar, conhecer e ter uma vida. Uma vida digna. Quem tem o direito de interromper os rumos da minha vida ou de qualquer mulher? Por que eu tenho que passar por esse tipo de coisa?

Ninguém responde, ninguém se importa, mas todos julgam. Todos destrincham a sua personalidade a fim de atribuir o fato a algum aspecto teu.

E pior do que toda essa crise será o encontro consigo mesma, a “hora da verdade”. Você vai ficar marcada, talvez terá uma coleção de boletins de ocorrência – registrados diante dos olhares de pena e mero julgamento – e todo dia, quando se olhar no espelho, vai odiar sua existência e o fato de ter um corpo que é visto como objeto sexual, submisso, “patrimônio público”… Quando não é nada disso, mas você abraça essa paranoia toda porque você cai e a culpa, por fim, está imposta. Você falhou e entrou para as estatísticas, garota.

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