Azar de Elvira

Elvira mal precisou sair de casa para se deparar com a vulgaridade humana. Estendia as roupas no varal, quando o tio Tavares chegou apressado, como quem foge após cometer um delito. E de fato estava por cometer.

Ela ouviu os passos apressados e quando virou-se para verificar quem chegara foi abordada. O tio, num golpe, passou a mão por sua cintura e segurou sua boca para que não gritasse. Ele a arrastou casa adentro, deu-lhe um tapa na cara e fechou a porta da entrada.

– Vim mostrar o meu amor por você, pequena! – sussurrou no ouvido dela no ápice de seu delírio.

Ela – que tinha apenas 15 anos e se desenvolvia rapidamente, se comparada as meninas da vizinhança – chorava e não entendia o porquê daquilo tudo. E não tinha porquê, a não ser a covardia humana.

“Para, tio, pelo amor de Deus!”, clamava em vão. Ele foi seco. Percorreu o corpo da pequena de cabelos lisos e longos, daquela menina que era a única filha de Bastião e Rosália, dois roceiros lá do sertão de Pernambuco.

Os pais haviam saído para fazer uma entrega na cidade e só dali a duas horas.

Ela clamou, pediu aos céus, rezou mentalmente todas as orações e até formulou três ou quatro novas. Porém, foi à toa.

O tio esfregava a mão em suas coxas, arrancara-lhe a calcinha com os dentes. Beijava-a, lambia-a e roçava a genitália sem dó.

Mas, para ele ainda não bastava. Fez questão de penetrar na carne, aprumou a pequena em todas as posições que lhe vieram à cabeça e perfurou a inocência de sua carcaça. Judiou da menina até vê-la desmaiada, sem os sentidos.

Manteve o castigo por quase uma hora, mesmo vendo a garota desacordada. E Elvira, quase que deixando a matéria na Terra, tinha um último pedindo possível no subconsciente: morrer de uma vez naquele exato momento.

Tavares se vestiu, correu para o banheiro e secou o suor com uma toalha que achou pendurada atrás da porta. Por um momento, encarou-se no espelho como se tomasse consciência do que acabara de fazer. Mas não passava de um relance. Ele não tinha escrúpulos. Lembrou da menina, semimorta num canto. “Depravada gostosinha”, falou para si mesmo.

Então, correu até ela, percorreu a mão direita por todo o seu corpo e a ajeitou, ainda desmaiada, num canto. Resolveu deixa-la daquele jeito, para que quando acordasse – e se acordasse – deixasse a criatividade aflorar para dar alguma explicação de seu azar aos pais. E ai dela se quando o fizesse acusasse-o, pois, assim, não seria apenas mais uma “mulherzinha abusada”, mas também morta – o que ele julgava mais do que coerente, afinal, “azar dela ter nascido mulher num mundo depravado”.

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