Da vontade de desistir

Tente lembrar o dia
em que anunciastes teus sonhos, menina.
Das reações que despertou, da força interna que teve
de criar/gerar, deixar fluir.
Lembre das noites em que todos dormiam na velha e grande casa,
enquanto você oscilava por entre os cômodos
e observava a lua, lá no alto, como se algum dia pudesse alcançá-la e tocá-la.
E você se recordava, diante da mesma janela, de cada perda sofrida,
dos afastamentos, dos eternos “adeus” – até mesmo daquele que fora forçado quando você era apenas uma criança, a maior perda da sua mísera vida.
Você prometeu que se realizaria, que venceria por e para você. Apenas.
Mas você não sabia, menina, que não aguentaria o tranco.
Não sabia que não, você não conseguiria dar a tal “volta por cima”
– se é que ela não passa de uma fábula.
Você não imaginava o quão sozinha se sentiria, mesmo em meio a uma multidão.
Uma multidão que é regida por futilidades.
Você não tinha ideia, menina, que a vida seguiria num descompasso insano – e que há de ser assim sempre.
Tu não imaginavas o quão imbecil parecerias para si mesma.
Você foi notada, enfim, e tem alcançado aqueles sonhos de infância,
mas ao mesmo tempo que sente sede de vida
você flerta com a morte.

E você se afunda no pensamento, na reflexão: “afinal, faria alguma falta?”

Talvez, em e por pequenos aspectos, menina. Apenas.

Porém, no geral, você não aguenta nem mesmo esse tranco.
E tu não tens com quem desabafar, com quem contar de verdade,
se não com o papel e a caneta, pois ninguém entende de fato
como você vingou, como tem passado por tais percalços.
E você também não consegue mais explicar ou tentar expressar
os sentimentos que te arrebatam diariamente.
Que você aprendeu a guardar tudo com você, a trancafiar tudo aí nesse peito repartido.
Só que em algum momento as coisas resolvem transbordar, assim… Do nada!
E é nessa hora que você avista as facas guardadas na gaveta da cozinha.
Você pensa por um tempo em como efetuar um corte rápido e letal, se deve ou não
trancar a porta da entrada.
Você pensa nisso ao menos uma vez por mês, menina.
E quando quer e tenta conversar,
quando precisa falar sobre para desfazer o nó que se formou na garganta
as pessoas te tacham de louca ou fazem pouco caso.
Mas você não é louca. É somente dor.
É cansaço físico, mental e espiritual.
É que você já perdeu tudo o que tinha, menina: as razões para viver.

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