Partida forçada

Junto as roupas, apago meu número de sua agenda eletrônica, acendo um cigarro e ajeito a calça. Ainda insisto em olhar em volta para me certificar de que não esqueci nada e percebo que você segue adormecido. Sempre foi assim.

Você notou que eu estava ali em algum momento? Vai notar hoje, mais tarde, ou amanhã que eu fui embora? Vai perceber o meu sumiço? Não vai, certamente. É que eu não passei de uma transa casual. Eu era quase uma parede na qual você só descontava as coisas – literalmente.

E o que é foda é cair no choro depois de ter levado o dia numa boa. Na minha solidão cotidiana. É foda ficar pensando na lacuna que você vai deixar na minha rotina, nas nossas transas tão boas, tão sensacionais. É foda demais lembrar que na transa você era meu sonho e depois, no diálogo, com o tempo, você foi fazendo dos meus dias um inferno.

Nada presta, ninguém presta, eu não presto para você – acredito veemente nisso. E o problema, amor, não é o fato de que você não se satisfaz com nada. Afinal, eu sou assim também. Eu sempre quero mais e mais, eu quis tudo – tudo mesmo – de você, inclusive. O problema é que você não mede as palavras. Você é a minha versão piorada de cinco atrás.

Mas meu bem, você poderia – e deveria – dosar a sua língua. Que como falei, eu era assim. Mas nem eu, nem a tia da fila do mercado, a imbecil da sua ex – sim, ela é uma imbecil –, seja lá quem for não tem a menor obrigação e o sangue de barata para ser maltratada diariamente.

É que você surta, baby, por tudo. E não, não hei de aguentar a você nem a ninguém que insiste em me detonar verbalmente todo santo dia. Não dá para viver se podando pela histeria alheia, amor.

E é foda, amor. É muito foda. A gente daria tão certo, não fosse tamanha impaciência e o desleixo de desconsiderar meus esforços para te manter perto, nem que fosse para apenas preencher o tempo fazendo o famigerado cafuné.

A gente daria tão certo. Eu vi pela carne, pelo toque, o atrito, a nossa transa. Mas você não enxerga dois metros a frente do seu nariz, baby.

Então eu vou embora e sei que você concorda, porque você está pouco se fodendo para qualquer um. E ao sair, amor, eu penso em você, nu, ali, durante o coito e quase que sinto o toque em tua pele, a mão percorrendo as tatuagens. A mão que envolvia o teu corpo e o confrontava contra o meu, para ir bem, mas bem fundo e senti-lo por inteiro.
Eu penso em cada ápice, cada orgasmo, cada fala tua… “Por que a gente tem que perder isso, seu desgraçado? Por quê?”, penso com raiva e malícia mesclados.

E eu não sei o que vai ser daqui pra frente, baby. Mas eu torço para que você melhore – e eu também, seja lá no que for. Eu torço por um retorno, mas agora a gente se despede, eu deixo o campo e saio despedaçada, amor. Fique bem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s