Válvula de escape

Desce uma garrafa de vinho, por favor.

Que as contas chegam e tomam conta da mesa da cozinha. A escrivaninha também está tomada: mais boletos, bitucas de cigarro, livros empilhados, dois copos e duas garrafas de vinho vazias. E não sei o que fazer.

Prometi a mim mesma, depois do primeiro porre da vida com a amada bebida, que não tomaria mais nenhuma gota. Mas tirar meu vinho, tirar a garrafa é abdicar da minha existência, da sanidade mental.

Que eu sei que me tornei isso, esse dejeto existencial por opção. Mas que, para me manter de pé, em meio a tormenta da última temporada tudo isso foi necessário.

No último período tudo quase – quase mesmo – definhou. No trabalho a casa ruiu sobre a minha cabeça. Os estudos? Ah, estavam atrelados à vida profissional. Logo, seguiam na mesma situação.

A vida pessoal? O convívio com a família? Não existiram.

Mas tinha uma pessoa. Uma pessoa especial. Só que, às vezes, você tira uma alma para dançar e ela se perde, ela não está no mesmo ritmo. E você insiste, você se mantém em meio aos pisões no pé, num compasso descompassado lindo, prazeroso… embora oco. Completamente forçado.

E você compra uma, duas, três… Cinco garrafas de vinho. Você quase não tem comida em sua geladeira. Isso não importa, garota. Você tem o que precisa: sua válvula de escape. Sem ela você já não funciona, você não escreve, você não respira, não se liberta. Sem ela você não vive.

E veja que não defendo essa postura, mas ela já se enraizou. Tudo aqui não passa de um relato.

Você sabe que sua válvula de escape não te fez, que não é você. Mas você não quer cortá-la. É uma escolha sua. S-u-a. Não cabe aos seus pais, aos irmãos, aos amigos. Não cabe a ninguém. Está nas tuas mãos, garota.

Mas ninguém te dá espaço. Ninguém respeita o teu ritmo. E você tem de se submeter às regras de pessoas que não vão entender 1% da sua agonia. Ninguém vai compreender o porquê de você ter uma cabeça tão fodida.

Ninguém te ouve, porque ninguém senta ao seu lado para rachar o vinho. Ninguém pega um copo para entender. Quem te ouviu, mesmo que pela metade, já não está mais aí.

E as interpretações erradas estão surgindo agora, brotando por todos os lados.
Ninguém vai entender o porquê de as coisas serem como são, de você ter tamanha necessidade de beber, de ser você.

Ninguém vai entender, garota. Que você escreve, que bebe, que você tem de observar para não cair por terra.Que você sabe que não serve para nada a não ser isso. E não, as pessoas não deveriam tentar te provar o contrário.

Você se conhece. Você já está pifando. Chegando a cada dia ao fundo do poço. E você precisa disso.

Você tem de ir até o fundo, completar o ciclo. Você não sai do campo enquanto o jogo não acaba. Mas você precisa, antes de tudo, da sua válvula de escape. Você precisa, garota. E você vai atrás.

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